Canceroso

Sexta-feira, Maio 18, 2007

Is there anybody ou there?

Out there?

Out there?




Quinta-feira, Julho 17, 2003

Cai o Pano.

Se tudo correu bem, este é o meu último post (paradoxal, essa declaração, nào?). Um post póstumo. Está sendo publicado por um conhecido, o advogado a quem deixei esta e outas incumbências.

Não deixo nenhum legado moral. Não fiz de meu blog um levante anti-tabagista, nem foi esta a minha intenção. Quis apenas contar meus últimos dias, minhas últimas impressões (e foi mais barato do que fazer análise). Agradeço a todos que aqui estiveram, por se interessarem, e se importarem, mesmo sabendo de que nada adiantaria (é, não adiantou mesmo, pois se isso está sendo publicado, é sinal de que morri.)

Não tive nenhuma epifania no momento da morte (se tivesse, contaria para vocês). Provavelmente não terei visto Deus, anjos, ou outras palhaçadas deste tipo, porque nunca acreditei nisso. Findou-se a chama, apagou-se a vela, e a única coisa que restou foram essas palavras, meu gato, e meus filhos. De minha morte estes só herdarão o material, nada de mim, realmente. Eles abdicaram disso há muito tempo, e até o computador de onde eu escrevia será (ou já foi) formatado. O gato deve estar ainda no apartamento, nào sei qual será seu fim.

Propositalmente, os comments também foram retirados, a meu pedido. Não quero que fiquem digladiando aqui depois de minha morte, mesmo não podendo ler. Acabou, morri, e foi só. Carpe Diem.





Domingo, Junho 22, 2003

Faz muito tempo que não venho aqui... Quase um mês, não? Não tenho o menor ânimo para fazê-lo. Penso, sento, mas acabo não fazendo nada, só olhando para a tela, e jogando paciência para tentar esquecer um pouco que sou um morto-vivo.

Não como mais. Não falo. Alimento-me por um tubinho que entra pelo meu nariz, que é onde coloco tudo o que bato num liquidificador e que chamo de "alimento". Até mesmo um condenado à morte tem o direito a um último pedido, a uma última refeição. Eu não. Quando sonho que estou comendo carne, aquele pedaço de picanha mal-passado, sangrando, coberto por uma capa de gordura semitostada e que estala na boca. Acordo chorando, não por suadades, mas de pena, e choro mais por saber que tenho pena de mim mesmo. Pena deste arremedo do ser humano que eu fui, um cadáver ambulante, um manequim animado.

E também não posso mais fumar. Não posso. Quero loucamente, mas não há meios para isso. Acho que é a única coisa que ainda me faz sair de casa, apesar da vergonha que sinto desta carne podre que estou habitando: saio para sentir o cheiro do cigarro alheio (como se eu ainda sentisse algum cheiro...). O meu desespero é tamanho que outro dia, em vez de bater no liquidificador café com pão, de manhà, bati café e o fumo de um cigarro. Doeu terrivelmente ao descer pela garganta, mas de dor eu já sou mestre.

Achava que a morfina me daria algum alívio, não deu. A dor pára por muito pouco tempo, tempo que aproveito para tentar fazer alguma coisa (como agora). Mas ela volta logo, e eu não posso tomar outra dose de morfina senão "vicia", como diz o médico. Merda, como se fizesse alguma diferença agora ser viciado ou não... E toda vez que vou buscar mais escuto outro sermão.

E é isso. Talvez eu morra antes do próximo post, talvez não. Talvez vocês achem mais fácil acreditar que é mentira tudo o que está aqui, para não sofrerem com minha morte. Talvez seja melhor mesmo. Vivam, vivam. Eu não sei ainda por quanto tempo poderei fazer isso.

E, quem puder, quando for acender o próximo cigarro, dê uma tragada bem forte por mim. Por favor.





Sexta-feira, Maio 30, 2003

Quero morrer. Não quero morrer.

Estou péssimo, me sinto um caco. Que nada, estou bem para caramba, olha! Porra, a quem eu quero enganar?





Quinta-feira, Maio 22, 2003

Sinto-me muito mal.

É, eu sei que não é novidade que eu tenho câncer, e que estou morrendo. Só que tenho me sentido muito, muito mal mesmo. Dói muito, incomoda, me impede de pensar, de falar, de agir.

Tenho ido ao INCA e visto outras pessoas com o mesmo diagnóstico, com o mesmo tipo de tumor, e isso me assusta muito. É diferente saber, ter certeza que vai morrer, é muito diferente de ver outras pessoas morrendo, de ver a morte em cada uma delas. Não quero ficar assim, não quero que a minha língua inche e saia da boca. Não quero usar redinhas. Não quero ter que aprender a colocar sonda para comer. Não quero.

Mas tenho certeza que não chegarei a isso. Estou morrendo, cada dia mais, e não luto contra isso. Não tenho "sede de viver", ou entusiasmo. Não quero sofrer tanto, lutando contra o inevitável. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer LOGO.





Sábado, Maio 17, 2003

E no domingo (amanhã) eu irei assistir à primeira leitura da peça da menina Paula Foschia, na Cobal do Humaitá.

Eu já disse a Paula que leio o blog dela de vez em quando, pois tenho procurado evitar o otimismo. Mas vai ser interessante sair para me "divertir" após tanto tempo. Vou até tentar rir.




O coment do Jira no post anterior... Bem, Jira, eu também gostava do Lobão quando ele dizia isso, e ainda não posava de profeta pop. Também sempre preferi viver dez anos a mil a mil anos a dez. Agora, sobre o "e se..."

Bem, e se eu não fosse nada do que sou, e não fizesse nada do que faço? Nào seria eu, isso é óbvio. Esse é um problema filosófico comum, que até o carroceiro, e o amolador de facas têm. Descobrir o que se é e SER, sempre. Não me lamento por ter fumado todos esses anos. Viver pela espada, morrer pela espada. Nào me lamentei quando a minha mulher me deixou, e não me lamento pela ausência de meus filhos. Já fui até chamado de "chorão" por um visitante do blog, mas chorar é o que menos faço aqui. Choro muito, é verdade. Fico deprimido, várias vezes. Mas nào porque me arrependo de nada. Por que vou morrer, só isso. E em breve, cada vez mais breve.






Segunda-feira, Maio 12, 2003

A pior coisa da dor é que ela me impede de pensar. Irradia-se (Eu sei que é lugar comum, mas já disse que não produzo literatura aqui, então, allors...) por minha cabeça, e me conduz a estados de torpor intelectual extremamente desagradáveis. Nas raras ocasiões em que tenho um interlocutor, ele fica falando e eu olhando para sua cara, não pensando em nada, apenas nos limites físicos de minhas própria cabeça, que parecem se expandir e se contrair com as ondas de dor. Até que escuto: "o que foi?" - e tenho que dizer: "Não, nada. Continue, então você estava na sala do diretor..."

Mas a dor nào passa. Lembra uma dor de dente, daquelas pré-canais, mas não passa. Nunca mais vai passar.